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Capítulo 25 - Iceberg

por Jessie Bell, em 03.06.11

Quinta-feira, apesar de todas as minha prezes, acabou por chegar, demasiado rapidamente. E apesar da excitação de toda aquela família, eu deparava-me com um grande problema: roupa.


Não tinha trazido nada de formal para vestir. Sinceramente, duvidava que tivesse trazido algo de formal mesmo para Nova Iorque.


Já tinha avisado Parker de que não tinha nada para vestir, mas ele disse-me para não me preocupar com isso. Não sei onde é que ele foi buscar a ideia de que eu possuía tal capacidade. De qualquer modo, os dias foram passando e eu não recebi qualquer tipo de informação, abordando esse tema. Porém, agora que o dia chegava, perguntava sobre o que é que iria fazer, porque o mais formal que tinha na minha mala era uma  sai azul escura de cintura subida, duvidava que servisse.


As minhas dúvidas ficaram esclarecidas, no momento em Parker entrou no meu quarto.


- Então vieste resolver o meu problema? – Perguntei-lhe no momento em que ele fechou a porta.


- Problema, que problema? – Perguntou, levantando uma sobrencelha.


- O problema adjacente à iminência de eu ir de calças de ganga, para o jantar.


- Que problema, é esse?


- Paras de gozar com a minha cara?


- Como é que sabias que eu estava a gozar.


- Porque caso não estivesses, as coisas correriam mal para o teu lado. Tu não arriscarias isso.


- Que medo! – Exclamou, fingindo tremer.


- Resolveste o meu problema, ou não?


- Pensava que já tinhas resposta para isso.


- Parker, paras de te armar em esperto?


- Eu nunca necessitei de me armar em esperto.


- Parker! Por amor a Deus, responde-me.


- Respondo-te a quê?


- Estou-me a passar contigo!


- Ficas tão querida quando te passas.


- Parker! – Gritei-lhe. Ele conseguia ser tão irritante, às vezes.


- Acalma-te mulher de Deus! Não percebes que estou a fazer tempo?


- Tempo para quê? – Perguntei intrigada.


- Respira fundo, Ly.


- Estás a ser tão, mas mesmo tão, irritante.


- E esse é apenas um dos meus muitos talentos.


- Estás-me a matar aos bocadinhos!


- Podes ter um bocadinho de paciência, pela primeira vez na tua vida?


- Dá-me uma boa razão.


- Amo-te.


- Ah! – Exclamei, num riso trocista. – Vais ter de te esforçar um bocadinho mais que isso.


Parker beijou-me a palma da mão, subindo até aos meus lábios, onde gentilmente pousou os seus.


- Estás divertir-te, não estás? – Perguntei, quando, por fim, descolou os seus lábios dos meus.


- Nem tu sabes quando.


Estava pronta para protestar, novamente. No entanto, o som de alguém bater à porta, interrompeu-me.


Parker abriu-a, sem perguntar quem era, ou coisa do género. Murmurou umas quantas meias-palavras, numa língua que era completamente inteligível, e depois fechou a porta. Vi que carregava um grande saco, que pousou em cima da cama.


- Pronto. O teu problema já está resolvido.


- Com quem é que estavas a falar?


- Com a autora do vestido.


- Desenvolve – pedi.


- Foi a minha irmã que o fez. Se não gostares, já sabes com que reclamar.


- Acho que não vai ser necessário. – Pelo menos, esperava que não.


- Ainda bem – disse num sorriso. Agora vou deixar vestir-te, que eu vou fazer o mesmo. Depois venho ter contigo.


E sem mais uma palavra, abandonou o quarto, deixando-me a sós, com aquele enorme saco.


Dirigi-me à cama e corri o fecho do saco, com alguma demora. Peguei na cruzeta e retirei de lá o vestido.


Quando o vi, fiquei absolutamente atónita. Era lindo.


Perfeitamente detalhado, possuía um corte ligeiro e esguio, que terminava ao nível dos joelhos, tinha uma cor única e indescritível, uma espécie de azul-marinho esverdeado. Um decote simples, sem grandes ornamentações,    que terminavam um pequeno “v”. As alças, cobertas com uma fina renda, do mesmo tom que o resto do vestido, seguiam até à parte de trás, onde se cruzavam, voltando, novamente, para a parte da frente, deixando o resto das costas abertas.


Vesti-o, numa série de movimentos ágeis e, quando acabei, olhei-me ao grande espelho dourado, que ocupava uma das paredes do quarto. O vestido assentava-me na perfeição. Era agradável ao toque, pois era feito de um material sedoso.


Fiz, com o cabelo, uma trança espinha de peixe, de modo a que fosse para o lado, para não tapar as costas.


Maquilhei-me, pondo, nos olhos apenas rímel, lápis castanho e sombra cor de bronze e exagerando nos lábios, com um batom vermelho vivo, que contratava com a cor do vestido, mais pálido. Por fim, calcei uns sapatos de salto alto, simples. Olhei-me mais uma vez ao espelho e fiquei contente com o que vi. Quando acabei eram seis e meia.


Não tive de esperar muito até Parker entrar no meu quarto, envergando um elegante smoking preto, que o faria parecer muito mais velho, se não fosse pelo seu ar maroto.


- Então, há razões para reclamações?


- Absolutamente nenhumas. Porquê tu tens?


- Por acaso, agora até estou bastante relutante a levar-te lá para baixo.


- Por mim podemos ficar aqui – disse, roçando-lhe a minha mão, pelo seu braço.


- Acho que é melhor não. Por muito que me apetece dar-te uma trinca – disse roçando os seus lábios no meu pescoço. – Ainda por cima, quando cheiras assim tão bem.


- Eu tendo a lavar-me nos feriados.


- A sério?! Eu só o faço no Natal. E… e.


- Pois, nota-se! – Exclamei numa gargalhada. Não era verdade, Parker tinha sempre um cheiro muito característico e agradável, que nunca consegui descrever. Para mim, limitava-se a cheirar a Parker.


- Vamos? – Perguntou, após me ter beijado furiosamente.


 


Quando descemos, o cenário com que me deparei, foi absolutamente estonteante.


Várias mesas dispostas pela sala, onde antes figurava um enorme sofá, e várias pessoas sentadas nas cadeiras enfeitadas, que rodeavam as mesas, cobertas por uma simples e elegante toalha branca.


Ficámos sentados numa mesa, juntamente com os irmãos de Parker e com uns  primos seus. Apenas faltava Michael. Que entrou, de rompante, acompanhado por Lauren.


- Ela veio – murmurei a Parker.


- O meu pai não é assim tão inflexível.


Michael entrou na sala e, contra todas as probabilidades, ninguém ficou a olhar embasbacado. Agiram normalmente, como se aquilo acontecesse todos os anos.


Ambos se dirigiram à nossa mesa e sentaram-se, cumprimentando as pessoas.


O jantar foi servido e toda a gente se estava a divertir, eu inclusive. A comida não era propriamente deliciosa. A verdade é que não gostava de peru, era algo demasiado seco e sem sabor.


Após o jantar, uma espécie de salão de baile foi aberto na sala de jantar, onde toda a gente começou a dançar.


- Queres dançar? – Perguntou-me Parker, com um sorriso libidinoso nos lábios.


- Achas que consegues? – Perguntei com o mesmo tipo de sorriso.


- Anda!


Parker levou ao centro do salão e tomou-me nos braços, girando-me suavemente.


- Então sou assim tão mau?


- Tão, não.


- Não sejas mazinha.


- Vá, pronto… safas-te.


- Safo-me sempre.


- Eu sei.


A música rapidamente acabou e assim que tocou a última nota, apareceu Michael.


- Então, vamos ensinar a esta gente como é que isto se faz? – Perguntou-me ele, oferecendo-me a sua mão.


- Aleluia! A minha salvação! – Exclamei, tomando a sua mão.


Parker lançou-me um esgar e eu respondi-lhe com um sorriso matreiro. Segui Michael até ao centro da sala e começámos a dançar, lentamente, ao ritmo calmo da música.


- Então, abandona-se assim a namorada? – Perguntei, tentando encontrar Lauren na multidão que girava naquela improvisada sala de baile.


- A Lauren não é lá grande fã de dança.


- UAU! Essa é uma estreia. Nunca pensei que o senhor Michael se pudesse apaixonar por alguém, que não gostasse de dança.


Michael lançou-me um sorriso envergonhado.


- A minha vida traduz-se em mais do que umas simples coreografias.


- A sério?! – Perguntei, numa exclamação sarcástica. – Como é que acabámos com pessoas tão diferentes de nós mesmos? – Perguntei retoricamente, buscando pelo olhar de Parker na sala.


- Bem, pensa assim: Se vires um sinal que diga, explicitamente – “ Não olhe!”, o que é que tu provavelmente fazes, olhas. Se te disser para não ouvires, tu ouves. A verdade é que estamos sempre mais sujeitos a fazer o contrário daquilo que nos é esperado. Pode parecer cliché, e se calhar, é mesmo. Mas, a verdade, é que os opostos se atraem.


- És um homem inteligente, Michael.


- Eu sei, Taylor.


De repente, a calma balada que tocava, parou. E foi substituída por um ritmo quente e sensual.


- Vamos acelerar as coisas, Taylor?


E sem mais uma palavra, lançámo-nos na exploração daquela música marcada com um ritmo forte e repetitivo.


Era fácil dançar com Michael. Simples. Sabia sempre para onde ir. O que fazer. Era como respirar, só que mais divertido. Muito mais divertido.


Quando acabámos, quando a música parou, reparei que mais ninguém estava a dançar. Era só eu e Michael. Todas as outras pessoas estavam paradas a olhar para nós, batendo palmas, quando finalizámos aquela dança de improviso.


O resto da noite decorreu sem grandes percalços e, às duas, já toda a gente tinha subido, ou ido embora, em direcção a uma noite de sono.


Parker apareceu no meu quarto, já quando toda a gente naquela casa tinha mergulhado num sono profundo. Pensava que estava feliz, pelo agradável desenlace da noite, porém o seu rosto desenhava uma expressão taciturna.


Sem dizer uma palavra, abriu o seu lado da cama, deitou-se ao meu lado e, após me beijar suavemente nos lábios, desligou a luz, preparando-se para adormecer.


- O que é que se passa? – Perguntei, voltando a ligar a luz.


- Não se passa nada Ly, tenho apenas sono.


- E eu sou um unicórnio.


- Lillah… Não se passa nada.


- Primeiro: nestes meses todos, nunca te vi com sono, duvido que agora estejas. Segundo: se não estivesse, de facto chateado com algo, tinhas gozado comigo, por eu ter dito que me parecia como um unicórnio.


- Não te pareces com um unicórnio – disse num tom de voz monocórdico.


- O que é que se passa?


- Quantas vezes é que é preciso dizer que não se passa nada.


 - Sabes que eu não te vou deixar dormir, enquanto não me disseres o que é que se passa, certo? É por causa do Michael?


- Não… - Disse arrastando a voz.


- Parker, por amor a Deus, não acredito que estejas com ciúmes do teu irmão.


- Diz-me: a não ser que em Portugal “não” signifique “sim”, donde é que tiraste essas elações.


- Da tua cara. Parker. Eu danço com ele. Não faço mais nada. Não o amo a ele, não nada. Ele é meu amigo, mas a Jessica também o é, e não tens ciúmes dela, ou tens?


- Está tão engraçadinha a menina.


- Park, eu sei que posso não ser a rapariga mais afectuosa deste planeta. Sei que nem sempre expresso tudo aquilo que sinto, mas lá por não o fazer, não quer dizer que não o sinta. Sei que digo piadas, para me afastar de ter de proferir algo vergonhoso. Por isso, vou tentar, futilmente, expressar-me. Ouve bem, poderá ser a única vez que ouvirás, – ordenei, forçando-o com as mão a virar o seu rosto para mim. – Tu, Parker Halle, és das pessoas mais fantásticas e maravilhosas que eu já conheci. E o simples facto de gostares de mim, faz-me pensar que isto tudo é surreal. Tenho medo. Tenho medo que aquilo que eu sinto por ti, não seja suficientemente forte para te fazer ficar. Tenho medos que saiamos magoados disto tudo. E é por isso, que eu não ando por aí a espalhar aos sete ventos que eu te amo. Por que isso já tu devias saber, sem eu te precisar de dizer. Afinal de contas, eu aceitei casar contigo.


- Quando eu penso, que estou quase a conhecer-te…


- Enterras-te um bocadinho mais, eu sei. Não te preocupes, acontece a muita gente. Pensa em mim como um iceberg.


- Fria e gélida, que habita os pólos e que afundou o Titanic?


- Não. Nunca viste um iceberg? Parecem enormes à superfície, porém por baixo são trinta vezes maiores. Pensa que ainda só conheceste a superfície.


- Pena… Gostava mais da teoria do Titanic.


- Agora quem é que se está a esconder, por entre piadas?


Parker encostou, suavemente um dedo aos meus lábios, antes que pudesse dizer outra palavra. E depois beijou-me fervorosamente, encostando o seu corpo ao meu. As suas mãos rudes percorriam o meu corpo e as minha faziam o mesmo, explorando cada centímetro do dele. Até que nos entregámos um ao outro.


 


 

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You told me I was like the dead sea. You never sink when you're with me.

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