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Capítulo 32 - Complexions

por Jessie Bell, em 18.06.11

Aquela semana foi a mais longa da minha vida. O facto de não poder ir às aulas de dança, de ter chumbado no exame e estar à espera de recurso, fazia-me sentir perfeitamente inútil. Sabia que ainda tinha a representação e o canto, mas não era a mesma coisa.


Parker tentava, frustradamente, distrair-me, mas não conseguia, pelo menos não por muito tempo.


Quando acordei, naquela fria manhã de Janeiro, uma agradável surpresa esperava-me.


- Bom dia! – Exclamou ele, assim abri os olhos. Parker já estava vestido e, quando olhei para ele, reparei que trazia um tabuleiro, com basicamente aquilo que compunha um grande pequeno-almoço.


- Bom dia. Para que é que é isto tudo? – Perguntei, sentando-me na cama, para tomar o tabuleiro nas minhas pernas.


- Fazes anos! Parabéns, grá – proferiu, dando-me um beijo delicado na testa.


Como é que me tinha esquecido do meu aniversário? Olhei para o relógio para confirmar, de facto, era dia 28. Fazia anos, fazia 20 anos. Andava tão distraída, que nem dei pelos dias passarem. Pelos vistos ele deu.


- Obrigada – disse com um sorriso. – Para te dizer a verdade, eu não me lembrei.


- Para te dizer a verdade, eu já sabia disso.


Sorri-lhe e comecei a comer uma torrada com manteiga. Ouvi o meu telemóvel a tocar e vi que era a minha mãe.


- Ouve isto! – Disse a Parker, atendendo o telefone e pondo em alta-voz.


- Parabéns! – Ouvi a minha família gritar em uníssono e em português, é claro.


- Parabéns, Mariana!


Seguiu-se uma conversa divertida e leviana, onde o problema do meu pé, graças a Deus, não veio muito à baila.


Quando acabei a chamada e o pequeno-almoço, vesti-me e saí do quarto, para fazer tempo, já que não tinha aula de dança. Fui para a sala e encontrei Michael.


- Parabéns, Taylor!


- Obrigada.


- Tenho uma prenda para ti.


- Tens?


- Tenho, mas tens de vir comigo.


- Desenvolve, mancebo.


- Mancebo?


- Sim, mancebo.


- Anda, depois verás.


Michael levou-me para a escola e entrámos na sala de dança, onde a aula de ballet feminina, já estava a decorrer.


- É esta a tua definição de “prenda”.


- Não é esta! É esta.


De repente, Mr. Samparro apareceu ao pé de nós.


- Olá Dalillah. Podes ir Michael. – Michael saiu. – Então como é que te estás a aguentar?


- Mais ou menos…


- Quanto tempo é que leva a recuperação?


- Normalmente, seis semanas… mas ainda não temos a certeza.


- Pois… Mas não te preocupes. Vai correr tudo bem.


- Como é que pode dizer isso, se você deixar de dançar, por causa de uma lesão, parecida com esta?


- Eu sei o que é que é não poder dançar, mas temos de acreditar que vais ficar bem.


- Então se sabe o que é, não me diga que vai ficar tudo bem, quando não tem a certeza disso.


- Há que ter fé. Não podemos acreditar que o universo possa tirar assim tanto talento do mundo, de uma só vez.


- Obrigada.


- De qualquer maneira, tenho uma coisa para ti. – Mr. Samparro, retirou da sua pasta uma carta, que me entregou. – Espero que te anime a melhorar.


A carta era da “Complexions Company Dance”. Senti o meu coração a bater mais rápido, porque “Complexions”[1] não era qualquer companhia de dança, era o meu sonho. Uma companhia de ballet contemporâneo de Nova Iorque[2], onde só entravam as elites. Os melhores, dos melhores. E, bem, ballet contemporâneo era, é, a fusão dos meus estilos favoritos.


Abri a carta com as mãos a tremer e li o seu conteúdo num ápice. Era do director da companhia, que tinha assistido à audição final, do primeiro semestre e que me tinha visto a mim e a Michael e que basicamente nos estava a convidar para fazer audições para a companhia, no final daqueles três anos, com a condição de o fazermos juntos. Um sentimento de felicidade invadiu a minha alma. Era o meu sonho, era o meu futuro.


- Nem sei o que dizer…


- Isto é uma enorme honra, Dalillah, não te esqueças disso. O que significa que, depois de o teu pé sarar, há muito trabalho para fazer.


- Eu sei, obrigada. Nem sabe o quanto isto significa para mim.


- Faço uma pequena ideia. Além de que ainda estou à espera do teu solo.


- Professor, eu não consigo dançar.


- Não ias fazer um solo de dança contemporânea.


- Que envolvia pés.


- Faz um novo. A dança contemporânea significa quebrar padrões. Nunca ninguém disse que era preciso estar em pé para se dançar.


- Mr. Samparro, faltam dois dias, além de que, e o dueto. E eu já não estava à espera de recurso?


- Não, o que aconteceu não foi uma falha técnica, tu esqueceste-te de magnésio, substituímos a nota da piruette from grand plie do exame, pela de frequência, do movimento. O pa de deux é adiado, em conjunto com o dueto, já falei com o Michael. Mas o solo, tu consegue-lo fazer.


- Obrigada, por tudo.


- Não tens de quê.


Saí dali e, logo que o fiz, encontrei Michael.


- Obrigada! – Exclamei, dando-lhe um abraço apertado.


- Obrigado, eu. Sem ti nunca teríamos recebido aquelas cartas.


- Digo-te o mesmo. Parece que estou a sonhar… Complexions.


- Então, foi, ou não foi, uma boa prenda de anos?


- A melhor, Mike.


- Ainda bem que gostaste – disse com um sorrir nos lábios.


 


Quando cheguei a casa, nesse final de tarde, Parker esperava-me. Assim que o vi, contei-lhe tudo, tal como fiz depois com Jessica e com Melanie. Sentia-me bem. Estava em êxtase.


- Então, estás pronta? – Perguntou Parker, quando irrompeu no meu quarto.


- Pronta para quê?


- Para a tua festa de anos – proferiu com um sorriso maroto.


- Quase que acreditava em ti.


- Eu estou a falar a sério.


- Não estás, não.


- Tenho quase a certeza de que estou.


Revirei os olhos.


- Vá lá… É só um jantar, com o pessoal, cá de casa.


- Prometes?


- Não.


- Vai ser mesmo esse o modo que vais utilizar, para me convencer?


- Lembras-te, quando estávamos em Houston, na praia, eu descobrir uma maneira muito mais eficaz de te persuadir?


- Nem penses. Prefiro ir pelo meu próprio , e muletas, claro.


- Claro. Daqui a vinte minutos saímos – e depois de uma beijo suave nos lábios, saiu.


Vesti-me rapidamente e, após pôr uma maquilhagem leve, saímos, em direcção à cidade.


- Promete-me que isto não vai ser nada de especial.


- Eu já disse que não prometo nada.


- Parker… - proferi arrastando a voz.


- Dalillah… Não resultou?


- Consegues ser tão irritante.


- Eu sei!


O grande jipe prateado parou à frente de um enorme e inovador restaurante iluminado, com vistosas luzes de néon.


Quando entrámos, percebi que não era bem o que Parker me tinha descrito, principalmente, pelo facto de estar lá, quase metade da escola. Sinceramente, não me importei.


O jantar foi passado bastante bem e, após a agradável refeição, sendo que era um dia da semana, toda a gente se foi embora, incluindo eu e Parker.


- Com que então, um jantar com o pessoal lá de casa? – Perguntei, num tom jocoso, já dentro do carro.


- Quando eu disse “casa”, estava a referir-me à casa, instituição, escola. Não há “casa”, apartamento. Tu é que percebeste mal.


- Tens toda a razão. Perdoa a minha ignorância.


- Estás perdoada grá.


- Ainda bem, deixas-me muito mais descansada.


- Foi demasiado? – Perguntou ele, com uma súbita expressão de preocupação, desenhada no seu perfeito rosto.


- Não, não foi, Park. Foi absolutamente perfeito. Obrigada, estava a precisar – reconheci, dando lhe um beijo repenicado, numa das faces macias.


Olhei pela janela, enquanto atravessávamos a famosa avenida de Times Square. Ali era o sítio onde os sonhos aconteciam. Naquela pequena avenida, estava representado o mundo, a economia, a arte, tudo. Broadway, MTV, Rockfeller, etc….


- Porque é que viemos por aqui? – Perguntei, quando finalmente caí em mim. Aquele não era o caminho usual…


- Eu gosto de passar por aqui, principalmente à noite e principalmente no Inverno. É esplendoroso, não achas?


- Acho. – E também achava, que poderia retratar mais um dos meus sonhos inacabados. O que é que eu iria fazer se não pudesse dançar? Não era como se eu fosse muito boa a algo mais. E eu sentia a necessidade de ser muito boa a algo, sempre o tinha sido.


A possibilidade de isso acabar, assustava-me de morte. Teria de voltar para Portugal, teria de deixar Parker, porque por muito que gostasse de cantar e de representar, sempre que o fizesse, lembrar-me-ia de que o fazia, porque já não podia dançar. Nunca me dei bem com planos “B”. Apesar de não ter dito nada disto, Parker percebeu-o, ao olhar para o meu rosto transtornado.


Estávamos a sair do carro, a neve caía lentamente, sobre as nossas cabeças e o frio enregelava-me o corpo.


- Espera – disse ele, impedindo-me de entrar no prédio. – Tenho mais uma coisa para ti.


E dito isso, retirou do bolso uma pequena caixa, que me pouso nas mãos.


- Se me vais pedir em casamento outra vez, aviso, desde já, que um mês não é algum tempo, por isso a minha resposta, vai ser a mesma.


- Não, não te vou pedir em casamento outra vez. Podes abrir a caixa, se não for demasiado incómodo?


- Podes abrir tu, por favor. Muletas e tal… - pedi, abanando-as.


- Ah, sim, desculpa.


Em pequenos movimentos ágeis, abriu a pequena caixa e depois mostrou-me o seu conteúdo: Um pequeno fio prateado, onde pendiam, duas pequenas pontas, cruzadas entre si.


- Porque um dia vais voltar a usá-las e a maravilhar o mundo – disse, com uma voz suave, quase sussurrando. Uma pequena lágrima escapou-me do olho e ele limpou-a, com os lábios carnudos, que desceram até aos meus lábios. Tentei abraçá-lo, desajeitadamente, porém as muletas não o permitiram, fazendo com que ele sorrisse para mim, num misto de diversão e pena.


- Desculpa, não era suposto eu chorar. Muito obrigada, Parker. É lindo. – Assegurei-lhe tocando ao de leve no pendente.


- É para condizer.


- Condizer com o quê?


- Contigo.


Começámos os dois a rir, devido àquele momento embaraçoso.


- Soou muito mal, não soou?


- Estaria a mentir se dissesse que não.


- Anda, vamos para dentro, antes que fiquemos doentes.






[1]



 


 



[2] A companhia é real


 



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publicado às 13:17


35 comentários

De Starfloo Malfoy a 18.06.2011 às 13:47

O tipo de letra do quê? Nome do blog?

De Starfloo Malfoy a 18.06.2011 às 14:07

Yap, tens algum tipo de letra em mente?

http://www.dafont.com/ (http://www.dafont.com/)

De Starfloo Malfoy a 18.06.2011 às 14:20

Esqueci? ups :$ vou colocar...
Mas olha tens de me dizer o nome desses tipos de letra...

De Starfloo Malfoy a 18.06.2011 às 14:39

http://blog-testedevisual10.blogs.sapo.pt/ (http://blog-testedevisual10.blogs.sapo.pt/)
E agora? Ja mudei o fundo, o tipo de letra.
Se nao conseguires ver a sinopse bem vou ter de tirar 1 das 4 :$

De Starfloo Malfoy a 18.06.2011 às 14:43

Estava melhor antes, mas olha para ficar bem é melhor mesmo tirar um. Qual queres q tire?

De Starfloo Malfoy a 18.06.2011 às 14:47

Tou-me sempre a esquecer...
Okay, vou tentar ;)

De Starfloo Malfoy a 18.06.2011 às 14:49

Se tivesses especificado melhor o que querias não tinha este trabalho todo :$ qual é a frase?

De Starfloo Malfoy a 18.06.2011 às 14:49

E o tipo de letra da frase*

De Starfloo Malfoy a 18.06.2011 às 15:06

http://blog-testedevisual10.blogs.sapo.pt/ (http://blog-testedevisual10.blogs.sapo.pt/)
Ja coloquei a frase e mudei e diminui a letra do menu. Já vês bem?

De Starfloo Malfoy a 18.06.2011 às 15:11

http://blog-testedevisual10.blogs.sapo.pt/ (http://blog-testedevisual10.blogs.sapo.pt/)
Ja coloquei mais para cima, ainda vês mal?

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You told me I was like the dead sea. You never sink when you're with me.

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