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Capítulo 24 - Mr. Henry George

por Jessie Bell, em 29.05.11

Antes do capítulo, gostava de agradecer à Happy Sweet Designs, pelo design do blog, ficou fantástico, na minha opinião (e na dela) xD. Digam-me também o que pensam dele.


 


 


Quando acordei e o vi ao meu lado, uma sensação de felicidade invadiu o meu corpo. Espreguicei-me lentamente, sem qualquer intenção de me mover dali.


Olhei para o seu rosto e tudo o que vi foi um sorriso, um perfeito sorriso desenhado pelos seus lábios carnudos e apetecíveis.


Passaram-se vários minutos, até que Parker abriu um olho.


- Bom dia – disse ele, esboçando-me um sorriso que me mostrava os seus dentes brancos.


- Bom dia – repliquei, dando-lhe em seguida um beijo.


Parker arrastou um braço para fora dos lençóis, virando para si o pequeno relógio digital, que se encontrava em cima da mesa.


- Merda! – Gritou.


- Agora quem é que se está a passar por causa das horas? – Perguntei, num riso.


- Ly, são dez da manhã e eu não devia estar aqui. Como é que pensas que vou voltar para o meu quarto sem ninguém reparar?


- Então é assim, tens duas hipóteses: janela, ou porta.


- Janela: estamos em Novembro. Porta: eu já te expliquei a razão pela qual não posso sair pela porta.


- Desculpa lá, eu fui à água contigo, em Novembro, e o menino não consegue atravessar uma janela de tronco nu.


- Tu estás a divertir-te, não estás?


- Um bocadinho… - reconheci, rindo-me. – É giro, pela primeira vez não ser eu a passar-me.


- Então aproveita, porque se alguém descobrir, não vou ser só eu a passar-me.


- Agora a sério, como é que vais sair daqui?


- Eu saio pela porta e, se encontrar alguém, digo-lhe que só vinha ver se tu estavas bem.


- Agora explica-me o porquê de tanto drama, Mort?


- Sabes que isso exige vingança.


- Sai do meu quarto, vândalo.


- Pois, pois, covardezinha.


Parker saiu do quarto e eu fiquei vários minutos à escuta. Não ouvi.


E como não ouvi, levantei-me num ápice, para me ir vestir. Enfiei uma camisola de malha grossa e larga e umas calças de ganga justas e pretas, calçando uns botins cinzentos-claros, da mesma cor que a camisola.


Saí do quarto, no mesmo instante em que Parker saiu do seu, também já vestido.


- Então o menino vai ter de cumprir tempo de pena?


- Não, mas o meu avô viu-me.


- Estás a falar a sério?! – Perguntei, com uma expressão de espanto. – O que é que tu lhe disseste?


- A verdade.


- Porquê?


- Eu não minto ao meu avô.


- Porque não?


- Porque ele é uma das pessoas mais respeitosas que existe no mundo. Anda, quero que o conheças melhor.


Parker conduziu-me para fora da grande casa branca, em direcção a um barracão, que se encontrava nas traseiras da casa. Assemelhava-se a um celeiro, porém, era mais pequeno.


Quando entrámos, vi algo que nunca tinha visto. Aquilo era, sem dúvida alguma, uma oficina, no entanto, não era uma normal. No tecto, estavam pendurados dezenas de violinos, muitos por acabar, outros já acabados. Eram lindos. O meus olhar, desviou-se, então, para outro canto da oficina. No lado oposto, estavam várias guitarras. Aquilo estava num estado caótico. Todos nos recantos estavam cheios de alguma coisa: moldes, cordas, arcos… Era fantástico. Nunca tinha visto nada assim.


O velho Mr. George ali estava. Demasiado concentrado no seu trabalho, para se aperceber da nossa presença. Não consegui ver no que estava a trabalhar, porque estava de costas. De certa forma, fazia-me lembrar Parker: demasiado concentrado, para notar em alguém, embarcando no seu próprio mundo misterioso, no qual mais ninguém pode entrar.


- Avô… - disse Parker, com um tom de voz baixo.


Mr. George não proferiu nenhuma palavra. Continuou cabisbaixo, trabalhando, no que quer que fosse em que estava trabalhando.


- Avô!


- Credo, Parker! Achas que eu não te ouvi da primeira vez?! Ainda não estou surdo! Dá-me um minuto, rapaz – proferiu, sem nem uma vez desviar o olhar do seu trabalho.


O avô de Parker continuou e, após exactamente um minuto, levantou a cabeça e olhou para nós.


- Pronto! – Exclamou. – Já acabei… És mesmo igualzinho ao teu pai: impaciente, como tudo. Ainda por cima trazes companhia.


Veio na minha direcção e cumprimentou-nos a ambos.


Só depois percebi o que é que Mr. George tinha estado a fazer. Bem, se pensarmos bem, era óbvio. O avô de Parker tinha acabado de fazer um lindo e delicado violino.


- Queres lhe fazer as honras, rapaz?


Parker assentiu e, sem dizer nada, pegou no pequeno violino e, após lhe ter colocado o suporte e ter aparafusado o arco, tentou tocar.


- ‘Vô, a única coisa que vou conseguir tocar nesta miniatura é o “brilha, brilha, lá no céu”. O braço disto é metade do meu. Para quem é que isto é?


- Para a filha mais nova dos Stryder’s.


- Ela sabe tocar?


- Vai começar.


- Vai para a academia?


- Ainda não sabem. Tu é que lhe podias dar umas aulas, rapaz.


- Com que tempo?


- Pois, pois. Então e a menina, também toca? – Perguntou-me Mr. George.


- Só piano – disse num murmúrio.


- Ainda bem que sim. Vai-me ser muito útil – disse com entusiasmo.


- Já o acabou? – Perguntou Parker com súbito interesse.


- O Freedman passou cá no sábado passado, mas ele não conseguiu avaliar as teclas, porque o pianista da igreja estava fora – disse Mr. George, arrastando um grande e elegante piano de pé. Preto, clássico.


Dirigi-me a ele, com o intuito de levantar a sua tampa.


- Espere, vou lhe buscar um banco.


Levantei a pesada tampa, que já tinha o sistema de suspensão e encostei-a ao piano, com todo o cuidado. Com o mesmo cuidado, removi o pequeno pano vermelho e aveludado que cobria as teclas brancas e pretas do delicado, mas robusto, piano.


Sentei-me no banco, que entretanto Mr. George me tinha trazido.


Sabia exactamente como é que as teclas de um piano deviam tocar debaixo das cabeças dos dedos. Não muito duras, não muito moles e de fácil contacto com os martelos, para que respondessem rapidamente, quando necessário. Sabia como qual as transformações é que os três diferentes pianos deviam fazer. O da direita inibia, o do meio prolongava as notas, por um curto período de tempo e o da esquerda prolongava-as, deixando-as pairar no ar. Sabia que devia medir entre 60 e 70 centímetros.


Sabia tudo isso e muito mais. Porque não era a dança apenas a minha paixão. Também o piano. De certa maneira, o piano é como a dança. Exige trabalho, paciência, controlo, concentração, amor e principalmente, exige uma alma. Só assim se consegue tocar. O meu professor do conservatório dizia-me sempre isso: que para ser uma grande pianista eram necessárias duas coisas – técnica e paixão. Ninguém quer ver um robô a tocar, porque mesmo que toque na perfeição, nunca vai conseguir transmitir a alma da peça. Porque por detrás de cada nota está uma história, uma razão, um pensamento loucamente reflectido antes de tocado. A verdade é que as notas são como palavras, todas transmitem uma ideia, porém não funcionam sozinhas. É preciso uni-las e saber pronunciá-las, de modo a que façam sentido, de modo a que contem a sua própria história.


Sabe-se, pela sua obra que Bethoven era odiado, que era louco e radicalista e que nas suas peças seguia o seu coração. Sabe-se que, quando se toca um intervalo de 5ª, se está a invocar o diabo, por isso, qualquer obra que possua este tipo de intervalos é uma  obra irada, cheia de cólera e sofrimento. Sabe-se que Debussy era um apaixonado e que Tchaikovskky era homossexual e sabemos tudo isto, porque eles nos deixaram a sua própria biografia, porque eles nos deixaram a sua obra.


Assim, sentei-me e comecei a tocar o Reverie de Debussy  , uma das minhas peças favoritas. Rapidamente a pequena oficina se encheu de uma melodia triste e romântica, transportando-nos para uma atmosfera parisiense. A verdade é que as teclas respondiam muito bem ao toque, suaves, deixando-me movimentar os dedos, sem escorregar e sem vacilar. Sabia que era difícil fazer um bom piano, porém, Mr. George tinha completado um.


- Então o que acha? – Perguntou o avô de Parker, quando acabei finalmente de tocar.


- Acho que está bem. Acho que está bastante bem, para dizer a verdade.


- Nem sabe como isso me deixa feliz. O Freedman disse que não o conseguia fazer. Mas isto depois de saber fazer as cordas e perceber os pedais foi um instantinho.


- Avô, você demorou quase um ano. A igreja quase que está para comprar um, há para aí três meses. Podia ter pedido ao pessoal da empresa para o ajudar.


- E porque diabo é que eu faria isso? Eu cá nunca vou por atalhos! Não sei porque é que tu está a ir.


- Eu não estou a ir por atalho nenhum. Só estou a dizer que tinha poupado muito tempo à igreja.


- Pois, pois.


- Vá lá, admita, quanto tempo é que esteve para desistir disto? – Perguntou Parker com um tom de provocação.


- Vez nenhuma, olha-me essa. Alguma vez me viste desistir de alguma coisa, rapaz?


- Já. Daquela vez que começou a fazer uma horta.


- Mas isso não foi por incapacidade, foi por mero aborrecimento.


- Pois, pois…


- Parker Mortimer, não duvides de mim.


- Eu cá não duvidei de ninguém.


- Sim, sim. Vá, vão lá almoçar e deixem-me aqui a trabalhar. E muito obrigada, menina. Salvou-me o dia.


Saímos da oficina em paço lento, deixando-nos ficar pelo verde jardim.


- Então o que é que achaste do grande Henry George?


- Achei que vocês são iguaizinhos!


- Estás a brincar, só pode.


- A sério que não vez? “ Eu cá nunca vou por atalhos!”, a quem é que isto te soa?


- Ao meu avô.


­- Tu não ouves aquilo que dizes? Sempre que falas é como um grande bip dentro da tua cabeça?


- A maior parte das vezes sim.


Soltei uma gargalhada descabida, face à sinceridade com que ele disse aquilo e Parker juntou-se a mim.


- De que empresa é que vocês estavam a falar? – Perguntei, quando nos acabámos de rir.


- Aquele não é o trabalho do meu avô, Lillah… Ele é dono de uma enorme empresa de instrumentos de cordas, que fundou já há vários anos. Ele queria que eu ficasse com um negócio, mas depois percebeu que não era isso que eu queria e não se importou.


- Então o que é que vai acontecer à empresa, quando o teu avô se reformar?


- Não sei, nem ele sabe. De qualquer modo, não estou a ver o Mr. George a reformar-se. Talvez a venda um dia. Ele não o quer fazer, mas se calhar vai ser esse o destino da empresa. Pois é, esqueci-me de te dizer uma coisa sobre o jantar de quinta-feira.


- O que foi?


- É que, aquilo é uma festa enorme. Vão cá estar cerca de cinquenta pessoas, todos da minha família. A minha avó e a minha mãe é que dão demasiada importância a isto. De qualquer modo, para as deixar feliz e o que seja, é preciso estarmos todos bem vestidos. E quando digo bem vestidos, digo - eu vou estar de smoking.


Penso que depois daquelas declarações, a minha cara começou a mudar de cores.


- E, não sei, não te lembraste de me dizer isto antes de vir para aqui.


- Que diferença é que fazia?


- Primeiro, porque agora não tenho nada para vestir. Segundo, podia não ter vindo.


- Porque é que achas que eu não te disse?


- Vais-me ter de compensar tanto depois disto.


- O prazer é todo meu – afirmou com um sorriso maroto nos lábios.


- E não é dessa maneira, seu tarado!


- Há outras maneiras?! – Perguntou numa falsa exclamação.


 

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publicado às 21:51


4 comentários

De Marta a 29.05.2011 às 23:48

Adoro, adoro e adoro. A sério, não há palavras suficientes para dizer o quanto gosto do teu blog Nó.
Adorei o design do blog, e claro adorei a história.
Tens mesmo de continuar a escrever.
Bjs

De Rita a 30.05.2011 às 15:05

Mal posso esperar pelo próximo!
Simplesmente adorei! O design do blog está muito fixe.
Não pares.
Adoro-te :)

De copodeleite a 02.06.2011 às 22:53

Considero isso como um elogio... nem sei. apenas deixo que as minhas mãos escrevam livremente apesar que é normalmente inspirado em factos da minha vida.
beijo

De copodeleite a 18.07.2011 às 01:36

Como todas nós (a)

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You told me I was like the dead sea. You never sink when you're with me.

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