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capítulo 14 - Volta

por Jessie Bell, em 03.05.11

Era o dia da cirurgia. Estava nervosíssima. E se estes pensamentos fossem os meus últimos. Ainda havia tanto que eu queria fazer. Eu não podia morrer. Levantei-me e fui à pequena varanda. Olhei à minha volta. E se fosse a última vez que veria aquela paisagem? E se não voltasse a ver a minha família? E se não voltasse a ver o Parker? E se não voltasse a dançar? E se morresse e mesmo assim não conseguisse salvar a minha irmã? As lágrimas começaram a jorrar. E tive vontade de ligar a Parker. Mas depois pensei que esse acto apenas faria com que ele se preocupasse e com que ele viesse para cá. Eu não queria isso. Eu queria sobreviver.


Queria respirar fundo e lembrar-me novamente de que existirá um amanhã. Mas e se essa realidade não se realizasse. É claro que a opção de voltar atrás com a minha palavra não era minimamente viável. O anestesista veio para me levar para o bloco. A cirurgia da minha irmã começaria pouco depois da minha.


Despedi-me da minha família. E fui levada para o bloco. Olhei à volta e todo aquele cenário me assustou. Os bisturis, as seringas e outros objectos que não sabia para que serviam e que, sinceramente, não queria saber. Pediram-me para contar até vinte e assim o fiz. Quando cheguei aos doze já tinha adormecido.


A minha mente começou a divagar, procurando um sítio agradável para se fixar. Quando comecei a reter alguma imagem, estava numa praia. Ouvia o som das ondas a baterem na costa. E a praia tinha areia dourada. De repente ao meu lado vi Parker. Estava tão bonito. Quase mais bonito do que costumava. Agarrou-me o queixo e uniu os seus lábios, acariciando-me a língua com a sua. Descobri o quão agradável era o sabor dos seus beijos. Deitámo-nos lado a lado sem dizer uma única palavra. Olhei para o céu e vi gaivotas a voar por ali. Voltei a olhar para a cara dele. De repente, tudo estava branco. “ Estou no céu”, pensei. “ MERDA! Merda! Estou no céu. NÃO!” Tinha de sair dali. Eu não queria estar ali. Queria a minha vida. Queria sofrer se fosse preciso. Não queria esta calma. “NÃO!”, gritei na minha cabeça.


Acordei e olhei à volta. Estava no quarto do hospital. Mas quando voltei a olhar não estava no mesmo quarto em que estava, antes da operação. Estava noutro. “Onde é que está a Mariana?”, pensei. Passaram horas até a minha família me vir ver. Entraram um por um, numa fila indiana.


A minha mãe rodeou a cama, chegou ao pé de mim e deu-me um beijo suave na testa. Fechei os olhos momentaneamente.


- Mãe…  como é que está a Mariana? – perguntei, com a voz a vacilar. Os olhos dela encheram-se de lágrimas e o mesmo me aconteceu a mim.


- Dalillah... Dalillah… A Mariana ainda não acordou. Os médicos duvidam que isso aconteça. – Comecei a gritar. A gritar de fúria, de cólera de tristeza, de frustração. Isto não era justo. As lágrimas escorreram pela minha cara, até os olhos arderem-me tanto de chorar. Agarrei-me à minha mãe com toda a força que me restava. Estava farta de me manter forte. Queria desistir. A minha irmã tinha desistido e eu queria fazer o mesmo.


- Quero ir vê-la.


- Dalillah… Acabaste de acordar duma cirurgia. Depois, por favor.


- NÃO! – Gritei! – Quero vê-la agora.


Acabaram por ceder. Levaram-me numa cadeira de rodas até ao quarto e depois deixaram-me sozinha com ela.


Olhei para a sua cara inanimada. Era um cenário atemorizante. Ver a sua cara, ver a minha cara. Ver o nosso corpo deitado numa cama, sem qualquer reacção.


- Tu não tinhas o direito de me fazer isto! Não tinhas Mariana. Como é que eu vou viver com uma parte de mim, praticamente morta. Aqui. Deitada. Inanimada. Sem reacção. Tu sempre lutaste Mariana! Porque é que não estás a lutar agora! Por favor… não vás. Agora que fizemos as pazes. Agora. Não vás. Estás-me a matar.


Olhei para a mesinha ao lado dela e vi um bilhete com o meu nome. Provavelmente tinha-o escrito antes da sua cirurgia. Abri-o e comecei a ler:


“Dalillah,


O tempo que desperdicei a discutir contigo por coisa nenhuma, foi o maior arrependimento da minha vida. E agora que enfrento a morte e vejo que as probabilidades de perder são grandes, levaram-me a uma conclusão: Tu és a melhor pessoa que eu já conheci. Por isso, se eu morrer, promete-me que voltas para Nova Iorque, assim que saíres daqui. Promete-me que fazes alguma coisa da tua vida. Promete-me que te tornas alguém. Promete-me que me dás uma razão válida para o meu orgulho em ti. Por favor. Dali nunca me deu tanto orgulho ao ser igual a ti. Perdoa-me se estou morta.”


Agarrei-lhe as mãos.


- Tu não estás morta Mariana. Tu não estás morta! – repeti isto até a minha voz esmorecer.  Eu tinha e voltar. Ali não fazia nada. Nada. E eu tinha tanto medo do “nada”.


Os dias passaram e ela não melhorou. Porém, também não piorou. Tive alta. Tinha de voltar. Não disse nada a Parker. Queria esquecer aquilo. Queria esquecer a minha família. Queria esquecer a minha dor. Por isso fui e pedi-lhe que se encontrasse comigo no aeroporto. A minha família viu-me ir e percebeu aquilo que sentia. Voltaria no Natal. Quer a Mariana estivesse viva ou não. Eu teria de voltar e voltar a enfrentar a dor.


A viajem de ida foi mais desoladora do que a da vinda para Portugal. Chorei. Chorava todas as noites, no hospital. E não me limitava a chorar. Eu gritava o mais alto que pudesse. Por isso, no avião fiz grandes esforços para não adormecer.


Quando aterrei, tive a sensação mais estranha da minha vida. Consegui, pela primeira vez, sentir tudo: tristeza, felicidade, cansaço, saudade, nostalgia, vergonha, frustração…


Cheguei ao porão e viu-o. Ele correu para mim e abraçou-me e beijou-me apaixonadamente. Eu comecei a chorar. Comecei a chorar desoladamente. Ele apanhou-me a cara e perguntou-me o que é que se passava. Tudo o que saiu da minha boca foram sílabas incompreensíveis. Parker agarrou-me pala cintura e conduziu-me dali para fora em direcção ao seu jipe. Sentou-me no banco de trás. Fechou a porte e, passado cinco segundos apareceu do outro lado. Não me perguntou mais nada. Sussurrou que me amava e beijou-me. Beijou-me cuidadosamente, como se fosse essa a solução para a minha dor. Ele não sabia o que se passava, mas sabia exactamente do que é que eu precisava.

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publicado às 18:18


6 comentários

De Dih'h ◕‿◕ a 03.05.2011 às 18:42

Está mesmo mt lindo!
A Mariana não vai morrer pois nao? :|
Eu não quero...
Fizes.te com q algumas lágrimas saíssem do meu olho, o q está sempre a acontecer xD
Mais uma vez, está mesmo mt lindo!

De a 03.05.2011 às 20:44

Ainda nao decidi bem... xD Continua a ler e a comentar para descobrires :)

De Beatriz a 03.05.2011 às 20:58

ahh adorooo!!!
continua "grá", avisa-me quando publicares o próximo

De a 03.05.2011 às 22:07

Já publiquei o proximo xD Hoje estav inspirada

De NattahL a 14.07.2011 às 15:28

Esta lindo (:
xoxo'

De copodeleite a 18.07.2011 às 00:29

Pois. Compreendo. Pode por vezes ser um pouco irritante.
-gostei dessa analogia xDD

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