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Capítulo 1 - Casas comigo?

por Jessie Bell, em 18.04.11

 



 

 


Era a segunda vez que atravessava aqueles portões de ferro forjado e, apesar de ainda sentir borboletas na barriga, a primeira vez tinha sido muito mais assustadora… As audições, o medo de os meus sonho irem por água abaixo… Mas, na verdade, quais eram os meus sonhos? Começara a dançar aos 4 anos e, desde aí, que os tutus e as sapatilhas de ballet faziam parte da minha vida. Aos nove comecei a fazer dança contemporânea e dentro de mim sempre existiu o bichinho da representação. Por isso, a decisão de vir para Nova Iorque, para a P.A.I. (Performing Arts Institute), pareceu-me mais do que natural. A P.A.I., ou simplesmente P.A., era uma escola superior de artes performativas (dança, representação e canto) que tinha objectivo de lançar os seus alunos, após um curso de três anos, no mercado de Holywood.


As audições correram muito bem e a única surpresa foi ter entrado também para a turma de canto. Nunca tinha cantado na minha vida, tirando no coro do conservatório, onde tinha aulas de piano.


Hoje ia novamente à escola para levantar a chave do apartamento onde eu, em conjunto com mais 5 pessoas, ficaria. O campus situava-se nos arredores da cidade e para chegar lá havia uma linha de autocarro que ligava, somente, o campus à escola. Dirigi-me então à secretaria que se encontrava no rés-do-chão do edifício, que devia datar o século XIX. Aí fui recebida amistosamente por uma senhora de meia-idade, já com alguns cabelos grisalhos, que me forneceu a chave para aquela que, durante três anos, seria a minha casa.


Cheguei à paragem mesmo a tempo e apanhei o autocarro. Sentei-me e tirei da minha mala o meu iPod. Estava completamente concentrada na música que estava a ouvir e, por isso, nem reparei quando um rapaz se sentou ao meu lado. Só cinco minutos depois é que me apercebi que ele estava a olhar fixamente para mim. Quando olhei para ele para protestar é que reconheci a sua beleza. Ele era lindo! Era mais alto que eu, devia medir cerca de 1,80m, tinha um maxilar forte, um nariz fino e perfeitamente esculpido e uns olhos grandes e brilhantes, que tinham uma tonalidade que nunca antes tinha visto: cinzento claro. Após uns 2 minutos a olharmos um para o outro ele abriu a boca:


- Casas comigo?


- Desculpa, mas não costumo aceitar casar com desconhecidos – “mesmo que sejam assim tão bonitos”, pensei.


- É pena… tenho a certeza que davas uns filhos lindos... – Disse ele com uma tristeza no rosto, que rapidamente se transformou num lindo sorriso rasgado


- E se eu te dissesse que sou estéril – o que não era, mas apeteceu-me juntar-me à brincadeira.


- Então eu diria que é uma pena não poderes dar continuidade a tal beleza. – Agora estava confusa… Estávamos a falar de mim ou de ele? – Chamo-me Parker Halle – e estendeu-me a mão.


- Dalillah Vanbeveroun. – E apertei-lha. Eram bastante estranhas… Grandes e calejadas, talvez devido à guitarra que estava pousada ao seu lado.


- Não és americana, pois não. Não pareces.


Não percebi porque é que não parecia… Eu tinha uns grandes olhos azuis, um nariz pequenino e o cabelo comprido e castanho com ondulações e com madeixas naturais ruivas. Era pequenina. Um metro e sessenta e três e 48 kilos. Não sei como é que isso indicava que não era americana.


- Não. Sou portuguesa. – Anunciei.


- Portuguesa… Mas o teu nome não é português…


- Como é que sabes isso?


- Eu já tive aulas de latim e por consequente sei que qualquer nome que comece por Van não é de origem latina… - “Então ele além de bonito era inteligente, gostava disso”, deduzi.


- O nome é holandês, porque o meu pai é holandês. E tu? Também não és americano, pois não? - Ele tinha um sotaque diferente, não muito acentuado. Era divertido de ouvir…


- Pode-se dizer que sou uma mistura. Tenho dupla nacionalidade, americana e irlandesa. Mas já vivo em Nova Iorque desde os 6 anos. Então vens para o primeiro ano da P.A.?


- Sim, e tu? – Sempre que o olhava nos olhos descobria mais uma cor debaixo daquele cinzento. Era hipnotizante.


- Também. Double threat: representação e canto – anunciou solenemente – E tu?


- Triple. – Diverti-me ao observar a sua cara de espanto, que rapidamente se transformou num sorriso aberto.


- Impressionante. O meu irmão gémeo também o é. Se calhar conhece-lo… Chama-se Michael.


- Na verdade conheço… Ele fez audições comigo para as aulas de dança. Ele é muito bom…


O autocarro parou bruscamente e eu e ele saímos. A rua chamava-se “Fame”, o que era irónico… O meu prédio era o 8 e parámos à frente do mesmo.


- Eu fico neste - anunciei. E ele sorriu. Ficava tão lindo quando sorria…


- Eu estou naquele a seguir – e apontou – vemo-nos mais tarde.


Vi-o a andar em direcção ao prédio nove, com a sua guitarra, aquilo que deduzi ser um violino e uma mala preta e enorme. Ele era verdadeiramente bonito, até de costas. Tinha um ar rebelde e ao mesmo tempo limpinho. Ri-me de mim mesma por estar a pensar nisto e entrei no prédio, subi até ao segundo andar e abri a porta daquilo que seria a minha casa.

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publicado às 23:47


3 comentários

De Marta a 21.05.2011 às 21:27

Gosto tanto deles.
Uma relação que começa com um pedidio de casamento promete.

De NattahL a 14.07.2011 às 11:21

Adorei *-*

De elielife a 14.07.2011 às 19:26

amei! a do casas comigo matou-me é como a versão do parker :)
vou ler tudo igual :o não faz mal, quer dizer, não é igual eta é a perspectiva da dalillah
gosto das duas perspectivas :)

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You told me I was like the dead sea. You never sink when you're with me.

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