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Capítulo 13 - Tréguas

por Jessie Bell, em 02.05.11

 



 


 


Em casa, peguei no telemóvel, marquei o nº de Parker e esperei que ele atendesse. Passado 45 segundo ouvi a sua voz:


- Dalillah! Chegaste bem, Grá?


- Sim. Já cheguei de manhã. Já fui ao hospital.


- Como é que está a tua irmã?


- Mal.


- Ela… Ela vai morrer Ly?


- Não, porque vamos fazer um transplante.


- Quando dizes vamos… Dizes a tua irmã e outra pessoa qualquer, certo?


- Não Park. Eu vou doar-lhe parte do meu fígado. Não sei se sabes, mas ele volta a crescer.


- Eu sei disso. E também sei que é uma cirurgia complicada e que podes morrer.


- Parker, o que é que queres que eu faça? Que a deixe morrer?


- Dalillah… - Ouvi-o engolir em seco – Queres que eu vá aí? Eu posso pôr-me aí amanhã.


- Não! Tu tens aulas! E eu hei-de voltar. Além de que os meus pais não sabem de ti. Nem saberão tão cedo. Amanhã vou para o hospital. Depois falamos pelo computador. Pode ser?


- Claro. Mas Lillah?


- Diz amor.


- Não morras.


- Prometo.


Acabei por adormecer, apesar do jet lag. Tive um pesadelo horrível. Que retratava, basicamente, o meu funeral. Acordei sobressaltada. Eram 4 da manhã e não voltei a adormecer. Sentei-me na cama e olhei à volta. Como eu adorava aquele quarto. Tinha sido feito especialmente para mim. Levantei-me, vesti-me e fui até ao jardim, que rodeava a casa.


Alex começou a ladrar e a saltar. Soltei-o do poste a que estava preso e comecei a correr com ele. Gostava tanto dele. Era um serra da estrela do tamanho dum boi, com o pelo escuro. Tinha sido a minha prenda de boas vindas àquela casa, que agora habitávamos. Acabámos por cair na relva, um ao lado do outro. Começou a lamber-me a cara.


- Alex, não! – Digamos que ele não era muito obediente e, por isso, só parou quando me deixou a cara toda lambuzada. – Tinhas saudades minhas? – Perguntei-lhe. Deitou-se ao meu lado e aninhou o seu focinho contra o meu ombro, enquanto eu lhe afaguei o pelo. Tomei isso como um sim.


Tive de o deixar lá fora, com muito pesar meu. Mas a minha mãe não tolerava o Alex dentro de casa. Voltei ao meu quarto com o intuito de preparar uma mala para levar para o hospital. Comecei a tirar coisas do roupeiro e outras da mala, que tinha trazido de Nova Iorque. Não havia muito a trazer – uns pijamas, roupa interior, chinelos, iPod, portátil, pouco mais…


A manhã acabou por nascer e, às nove da manhã fui admitida no hospital. Fiquei no mesmo quarto que a minha irmã e isso deixou-a furiosa:


- O quê?! – Guinchou, quando me viu. – Já não me basta estar doente, e ainda tenho de a aturar?! – Perguntou, cruzando os braços por cima dos peitos.


- Não sejas tão picuinhas – disse o meu pai, num suspiro. Deu-me um beijo na testa despediu-se e, em conjunto com o resto da minha família, abandonaram o quarto, deixando-nos sozinhas. Ia ser uma semana e meia muito longa…


Deitei-me e liguei o portátil, na esperança de me entreter com alguma coisa. Não resultou. Queria falar com Parker, mas, em Nova Iorque, eram quatro da manhã. Olhei para Mariana. Ela estava com um tom amarelado, devido à doença. Tinha pena dela…


- Sim…? – Perguntou num suspiro, quando me viu a olhar para ela.


- Mariana, porque é que me odeias tanto?


- Eu não te odeio.


- Ok. Então porque é que não gostas de mim?


- És minha irmã, é claro que gosto de ti.


- Mariana… Por amor a Deus… Desde que temos nove anos que andas assim comigo.


 - Assim como?


- Há quanto tempo é que não temos uma conversa que não acabe em insultos, Mariana? – Ela suspirou… A verdade é que já passava muito tempo… - Podes dizer-me o que é que eu te fiz, para merecer tal desprezo da tua parte?


- Nasceste!


- Perdoa-me se a minha existência te causa assim tanto transtorno… Mas neste momento está a salvar-te a vida. E eu não quero que me agradeças. Quero que me digas a verdade!


- Dalillah… Não sei como é que te hei-de explicar. Nunca te quis magoar. E sei que, intencionalmente, tu nunca me quiseste magoar, mas durante toda a nossa vida eu tive de viver na tua sombra. Tu eras a menina perfeita que toda a gente adorava e que tinha talento para fazer tudo e eu era a outra. A outra gémea, que ninguém sabia quem era. Sabes o quão frustrante isso era?


- Mariana, por amor a Deus… estás a falar a sério? É por isso que me odeias? Por algo que eu não podia controlar?


- Sim. Estava frustrada. Mas. Olha para nós… Tu tens tudo, e eu o que é que tenho?


- Mariana, tu tens muitas qualidades que eu nunca possuirei. E uma delas é essa cabecinha, que apesar de raramente a usares, é muitíssimo inteligente. E tu sabes disso. Já pensaste que se calhar não eram as pessoas que te negligenciavam, mas sim tu é que negligencias as tuas próprias capacidades?


- Dalillah…. Nunca te quis magoar. A verdade, e eu sei que te disse coisas que te magoaram muito quando foste, mas, quando foste para Nova Iorque, tive saudades tuas Dali… Desculpa por ter sido tão estúpida…


- Estás desculpada Mariana. Também tive saudades tuas. – De repente senti como se um enorme peso se levantasse do meu peito. Fiquei tão feliz com aquele momento que me apeteceu chorar, o que não aconteceu.


- Então Dali? Como é que vão as coisas em Nova Iorque?


- Muito bem – disse com um sorriso. – E as coisas na faculdade? – A minha irmã gémea estava a tirar o curso de direito, para trabalhar, uma vez que acabasse o curso, na firma do meu pai.


- Vão bem. Mas se calhar vou ter de repetir o semestre, por causa desta porcaria. Então, namorados?


- Andas muito faladora, tu… - Resmunguei.


- Interpretarei isso como um sim. Desembucha!


- Chama-se Parker. – Acabei por dizer.


- A sério?! Ele é giro?


- É, é muito giro. – Mostrei-lhe uma foto do facebook dele e vi o seu queixo caiu.


- Escolhe-os bem. – Sorri-lhe.


- Preciso de fazer um telefonema. ´


- Vais ligar-lhe? – Assenti e dirigi-me à pequena varanda do nosso quarto e fechei a porta.


Marquei o nº do Parker e esperei que ele atendesse, o que aconteceu passado pouco tempo.


- Olá! – Disse.


- Olá amor. Passa-se alguma coisa?


- Não. Quer dizer, nada mais que o habitual.


- Estás com medo, Lillah.


- Isso foi uma interrogação ou uma declaração?


- Uma declaração. Consigo ouvi-lo na tua voz Grá.


- Bem, então acertaste.


- O que é que eu posso fazer Ly?


- Distrair-me.


- A sério?! – Disse com um tom de brincadeira. – Bem eu cá estava a escrever uma carta para mandar a uma rapariga que eu amo muito e que era suposto ela recebê-la quando acordasse de uma cirurgia que vai fazer. Queres que ta leia? Assim podes-me dizer se ela vai gostar.


- Claro!


- Bem, está um bocado piroso… Mas aqui vai:


“ Amor. Escrevo-te isto para te lembrar o quanto significas para mim.


Desde que entraste na minha vida, tu tornaste-te uma das pessoas mais importantes para mim. Admiro tudo em ti. A tua coragem, para com o futuro e todo e qualquer desafio. A tua bondade para com toda a gente, tirando aqueles que te chateiam. A maneira como te moves. Sempre comparei a tua maneira de andar a uma pena. Tu não andas, Grá, tu flutuas. E depois, há a tua incomparável beleza e mesmo a tua teimosia, que é incomparável.


Amor, tu és a melhor coisa que eu alguma vez possuí, nunca te esqueças disso. “


Então o que achas? – Senti uma lágrima a escorrer-me pelo rosto. – Lillah? Estás aí?


- Estou. Está lindo, Park.


- Obrigado. Achas que ela vai gostar?


- Acho que vai gostar muito.


- Ainda bem. Ela é mesmo especial, sabes?


- A sério. Eu conheço-a?


- Acho que sim.


- Como é que ela se chama?


- Kate.


- O QUÊ?! – As palavras saíram da minha boca com a maior raiva que alguma vez senti. Até ouvir uma gargalhada do outro lado da linha. – Odeio-te Parker Mortimer George Halle VI. –Ele continuou-se a rir às gargalhadas. – Pára! Não tem piada! – Gritei e ele parou.


- Desculpa. – Acabou por dizer. – Mas não consegui resistir.


- Idiota! O que vale é que te amo, senão estavas feito!


- Pois estava…

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publicado às 19:56


1 comentário

De Beatriz a 03.05.2011 às 20:50

Adoro estes capítulos enormes :D

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You told me I was like the dead sea. You never sink when you're with me.

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