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Capítulo 12 - Transplante

por Jessie Bell, em 01.05.11

 



 


 


O avião descolou e assim eu abandonei a cidade dos meus sonhos - Nova Iorque. Tinha lutado tanto para chegar tão longe e, apesar de não saber porquê, sentia que estava a abdicar de tudo. Da dança, do canto, da representação, do amor que sentia por estas coisas. Estava desistir do meu amor por Parker. As lágrimas voltaram a escorrer pelo meu rosto.


- Precisa de alguma coisa? – Era a hospedeira. Uma rapariga nova com o cabelo curto e escuro, que lhe emoldurava o rosto. Eu abanei a cabeça em sinal negativo.


Comecei a pensar em Mariana. O que é que lhe teria acontecido. Mariana… a minha irmã gémea. A minha semelhante, porque, de facto, ela era igual a mim (talvez um pouco mais pesada devido ao facto de não fazer 5h de dança por dia). Ela odiava ser igual a mim. Quando tinha dezasseis anos tinha pintado cortado o cabelo pelo queixo e pintara-o de azul eléctrico. A minha mãe passou-se, pediu-lhe justificações e pô-la de castigo. Tudo o que a minha gémea disse foi que não queria ser igual a mim. Sempre achei que ela me odiava. Ou aquilo que eu fazia. No entanto, sempre adorou o meu irmão. O meu irmão - a pessoa da minha família que mais se assemelhava a mim. Sempre achei que a notícia de eu ir para Nova Iorque, para ela, fosse como uma bênção. Porém, tudo o que disse foi que iria falhar, que não chegaria a lado nenhum e que voltaria para casa a chorar. Acertou a última parte.


 O avião aterrou e eu saí. Levantei a mala e dirigi-me à saída do aeroporto. O Ricardo estava lá. Corri para os seus braços e dei-lhe um abraço apertado. Como tinha saudades dele.


- Dali! – Exclamou. Há tanto tempo que não ouvia esse nome…


- Ricardo! – O abraço prolongou-se durante vários segundos até nos largámos.


- Como é que estás baixinha? – Ricardo era consideravelmente mais alto que eu, um metro e oitenta, talvez. Tinha os olhos da mesma cor que os meus e os cabelos, agora mais compridos do que a última vez que o tinha visto, escuros como a noite. 22 Anos. O meu irmão mais velho tinha 22 anos.


- Confusa… Ricardo, o que é que aconteceu?


- Vamo-nos sentar – disse, apontando para um banco. – A Mariana tem hepatite.


- Continuo confusa Ricardo… Tu disseste-me que eu a tinha de salvar. O que é que queres que eu faça? Não sou médica.


- Dalillah… Ela precisa de um transplante de fígado. E bem… nós todos fizemos testes e tu és a única compatível.


- Eu não fiz testes como é que sabem que sou compatível?


- Dali, tu és a sua irmã gémea verdadeira. Vocês partilham os mesmos genes. Vais fazê-lo?


- É claro que sim. Ricardo, nem sei como é que vocês pensaram que eu não o faria…


- Nós sabemos que ela te magoou. Além de que isso, não te compete.


- Ela é minha irmã. Eu faria o mesmo por ti, pela Joana, pela Francisca ou pela Laura…


- Vamos a casa. Vamos almoçar, falar com os pais e depois vamos ao hospital.


A viagem decorreu pacificamente e, finalmente, chegámos a casa. Como tinha saudades daquele lugar… Da nossa casinha estilo vitoriana. Do meu quarto, no sótão daquela casinha de bonecas. Do Alex, o meu cão. Saí do carro, fui até ao alpendre, que rodeava a casa, e bati à porta. A minha mãe abriu-ma. Assim que me viu, guinchou o meu nome e abraçou-me.


A minha mãe era a minha inspiração. Era juíza - uma mulher de carreira. Mas, ao mesmo tempo, conseguia ser a melhor mãe do mundo. Estava sempre do nosso lado.


Entrei em casa e cumprimentei o meu pai e as minhas irmãs. Tinha tantas saudades deles todos.


Ao almoço discutimos os planos. Basicamente hoje iríamos visitar a Mariana, eu ia fazer os testes de compatibilidade. Se os resultados fossem positivos, no dia seguinte, iria ser admitida no hospital. Em quatro dias seria operada e, uma semana depois, sairia de lá, e em breve voltaria a Nova Iorque.


 


Chegámos ao hospital de São João às três da tarde. Os meus irmãos e os meus pais ficaram a falar com o médico, sobre os meus exames e eu decidi ir ver da minha irmã gémea. Bati à porta e entrei.


- Olá! – disse. Ela estava com um aspecto tão débil. Nunca a tinha visto assim. Normalmente ela carregava um porte tão corajoso.


- Olá… Há muito tempo que não sabia de ti. – Sorri-lhe. Reparei que o seu cabelo tinha voltado à cor normal e fiquei feliz por isso. O azul eléctrico não lhe ficava muito bem.


- Eu também só soube alguma coisa ontem. Como é que estás?


- Mais ou menos. Mas eu vou passar isto, sabias?


- É claro que sei. É por isso que eu estou aqui…


- O quê? – A voz dela precipitou-se para um grito, que susteve, por estar num hospital.


- Mariana, tu precisas dum transplante de fígado… O que é que achavas que eu estava cá a fazer? Vinha-te cá agarrar a mãozinha e lamentar-me contigo?


- Eu não quero nada teu! Não te quero ficar a dever nada.


- Estás a gozar comigo, só pode? Eu fiz-te assim tanto mal para preferires a morrer a ficar com algo meu, que te salvará a vida?


- Não preciso da ajuda de ninguém. Eu vou sobreviver a isto!


- Pois vais. Porque vais receber o transplante!


- Não!


- Mariana, por amor a Deus, não sejas teimosa. Encara isto como algo bom para mim. Eu não quero uma irmã gémea morta. Depois quem é que eu chateio.


- Dalillah! Eu não te vou pedir isto!


- Percebe uma coisa. Pelos visto isto é a única maneira de te convencer a fazer alguma coisa: Se não receberes o transplante, vais morrer daqui a três meses e, durante esses três meses, eu estarei aqui. Por outro lado, se aceitares fazer o transplante, daqui a duas semanas eu volto para Nova Iorque e já só me voltas a ver no Natal. Estamos no início de Novembro, não queres mais um mês sem me ver?


- Ok. Eu faço o transplante.


- Obrigada. – E abracei-a, contra a sua vontade.


De facto eu era compatível. Daqui a uma semana ia ser operada. Estava preocupada.

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publicado às 20:05


3 comentários

De Marta a 16.05.2011 às 21:07

Adoro!

De NattahL a 14.07.2011 às 15:09

Amei (:
xoxo'

De copodeleite a 18.07.2011 às 00:22

Tudo tem coisas más mas de pensares até não é mau de todo...

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You told me I was like the dead sea. You never sink when you're with me.

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