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Capítulo 40 - Teoria do caos

por Jessie Bell, em 22.07.11



 


A teoria do caos é a teoria que explica o funcionamento de sistemas complexos e dinâmicos, na física e na matemática. Era pena que quando eu utilizava a palavra "caos" ela não tinha a mesma conotação.


A minha vida nunca estivera tão caótica. Estávamos quase a meio do ano lectivo. Agora, as manhãs eram passadas a ensaiar as exigentes coreografias das aulas, com Michael, os fins de tarde a ensaiar as exigentes coreografias das gifted classes, com Mr. Samparro e Michael e as noites a ensaiar as exigentes coreografias de Jacques. Raro era o dia em que saía da escola antes das nove e meia da noite. O meu horário de sono nunca estivera tão trocado. Agora todos os segundos eram aproveitados: estudar, compor, tocar, ensaiar, ler.


Não estava autorizada, por soberania própria, a pôr qualquer destas coisas em segundo plano – demonstraria fraqueza.


O meu corpo mirrava por debaixo da roupa amarrotada e sentia, cada vez mais frequente, que, apesar de ainda não o ter atingido, o meu ponto de ruptura aproximava-se a uma velocidade assombrosa.


Não falara novamente com Parker, desde a nossa “agradável” conversa, pois por muito mal que me sentisse com a situação, estava amolada com o comportamento demasiado protector que tomara.


Tinha acabado de tomar banho e de vestir o meu pijama azul e cor-de-rosa, quando vi o seu número acender-se no visor táctil do meu telemóvel. Tinham-se passado duas semanas e, contra toda a minha vontade, a coragem evadiu o meu corpo, obrigando-me a atender a chamada.


- Diz… - proferi, arrastando a voz, numa tentativa de soar maçada.


- Desculpa, querida, mas penso que invertemos papeis. Levaste a tua avante, não levaste? – Perguntou num tom molestado.


- Levei, sim. E tu tinhas de te vir meter e tornar tudo um pouquinho pior, não é, amor?


- De que falas, princesa?


- Do teu amável presente, fofinho. Não estava nada a espera que me arranjasses um tão gracioso cão de guarda. – Nesse momento, quase que ouvi o clique dentro da sua mente.


- Ainda bem que o achas gracioso. Porém, os teus ofendimentos são inválidos. O teu tão nomeado cão de guarda, não se destina a vigiar-te a ti, mas sim a ele – vociferou, atirando-me a última palavra, como o pior dos insultos.


- Não te percebo, chuchu: Estás a tentar dizer que confias em mim… Porém não confias na confiança que eu depositei noutra pessoa.


- Tu não vês o quadro por dentro, beleza. Se o fizesse, também tu não lhe terias depositado tal confiança, pois rapidamente te depreenderias que ele não é merecedor de tal dote.


- Quem te disse a ti, que eu já não confirmei os meus saberes por outras fontes, carinho?


- Foi isso que fizeste? – Perguntou, com uma voz mais alarmada, saindo do diálogo tipo que estávamos a ter.


- Pois com certeza, doçura. Nunca acreditaria numa história, sem ouvir mais de duas versões.


- E agora, quem terá problemas de confiança? E então, fofinha, que tal foi a outra versão?


- Está de acordo com a tua.


- E atreves-te a ficar ofendida, com a minha tão generosa oferenda de uma tentativa de protecção? Não te deixando sozinha com um vândalo?


- Parker! – gritei. Aquela conversa começava-me a irritar demasiado. – O que é que tu queres afinal?


- Vou voltar este fim-de-semana…


Isto não era justo, ele não estava a jogar com o baralho todo. Não tinha o direito de irritar daquela maneira, para depois me derreter o coração com tal notícia. Sentia-me rebaixada.


- Não dizes nada? – Perguntou, usando um tom mais leve, mais feliz.


­- Tu não jogas com justiça, Parker Halle. – acusei-o.


- Nunca disse que o faria…


- Afinal, nem demorou tanto tempo a passar – admiti, mais a mim própria, do que a qualquer outra pessoa.


- Deveria sentir-me ofendido? – Perguntou, com um leve tom de choque.


- Não, idiota. Estou simplesmente a dizer que tenho estado demasiado ocupada, para me preocupar… - “para me preocupar com coisas menores”, pensei, no entanto, não o proferi. Iria magoá-lo. – … para notar o tempo passar – corrigi.


- Vou fingir que acredito.


- Fazes bem.


 


Pela primeira vez, pensava em como poderia ter subestimado o tempo, pois este tornava-se cada vez mais escasso… Para mim a noção temporal sempre se estendera para o infinito, propiciando-me aproveitar todos os segundos e fazer tudo e mais alguma coisa. Porém, agora percebia que não era “tudo e mais alguma coisa”, porque, desta vez, havia um limite.


Tencionava aproveitar a semana que teria com Parker. Mas sentia que simplesmente tinha demasiado no meu prato e que nunca conseguiria acabar aquela refeição…


Mas já tinha abdicado de demasiado para desistir. Não o poderia fazer e, apesar de saber que se tratar de uma questão de orgulho e prepotência, não me importava, porque sentia que estava ser fiel a mim própria e, naquele momento, foi tudo o que importou.


De certo modo, partia-me o coração deixar Parker chateado e preocupado, no entanto, as suas motivações não eram as mais indicadas, o que acalmava a minha dormente sensação de culpa.


 


O fim-de-semana chegou demasiado depressa, para eu o sentir a passar. A minha única esperança, era que o mesmo não acontecesse com aquela semana preciosa. Pelo menos era nisso que eu pensava, quando saí de P.A., após mais um extenuante ensaio com Michael, naquela estranhamente agradável tarde de Fevereiro.


Entrei no primeiro táxi que encontrei, quando finalmente abandonei o decadente edifício, onde estava instalada a escola. Enquanto compunha a desajeitada blusa azul carmim que vestia, indiquei o destino ao taxista de cabelo grisalho e tez morena.


O trânsito acumulava-se pelas geométricas ruas de Nova Iorque e eu sentia a minha cabeça a girar com as coisas que tinha a fazer, sendo aquela que estava no topo da lista “acalmar-me”.


Num esforço para completar a primeira das tarefas da minha lista, traguei um golo da minha garrafa de água, que tirei de dentro do meu gigantesco saco de dança e foi nesse momento que o motorista, num sotaque estupidamente indiano, me garantiu que chegaríamos atrasados ao aeroporto.


Suspirei, olhando para a janela, para constatar que o taxista tinha razão: As ruas estavam entupidas e a banda sonora consistia em milhares de irritantes buzinas.


Olhei para o telemóvel, pela milésima vez, naquela demasiado longa viagem e, após uma irritante melodia, vi-o desligar-se, contra todas as minhas tentativas de ressuscitação.


O quadro não podia estar melhor: Ali estava eu, presa no caótico trânsito de Nova Iorque, sem qualquer poder de comunicação, claramente atrasada e com a minha cabeça a rodopiar sobre milhões de assuntos distintos.


Tinha passado quase uma hora, quando finalmente saí do automóvel, que me estava a proporcionar uma sensação de claustrofobia. Após pagar uma exorbitante conta, corri pelo aeroporto, para o encontrar sentado, num banco, já na entrada acompanhado por uma mala, mais pequena do que a usual.


 Assim que me viu, levantou-se e andou num passo apressado na minha direcção. Estreitou-me nos seus braços cobertos por uma fina camisola preta, fazendo-me suster a respiração. Aquele gesto foi-me demasiado familiar, para não me derreter. E quando os meus lábios tocaram nos dele, num movimento rebuscado, senti uma carga de energia mirabolante a ser depositada no meu corpo.


- Olá – disse-me, enquanto o apertava mais contra o meu corpo.


- Desculpa – pedi-lhe. – O trânsito estava um caos, e saí atrasada do ensaio e o meu telemóvel ficou sem bateria e… - Ele limitou-se a silenciar-me com os seus lábios macios, num movimento cliché.


- O que é que te aconteceu? – Perguntou, olhando-me de cima a baixo.


- Nada de especial… - disse, intrigada.


- Reduziste-te para metade – constatou. – Não te tens andado a alimentar.


Olhando em retrospectiva, talvez ele tivesse razão: Não só estava a comer menos, como andava a fazer muito mais exercício, porém a balança nunca fora minha inimiga e eu não lhe prestava a maior das atenções.


Mandei-lhe um sorriso aberto e ele respondeu-me com um igual.


- Estás bem? – Perguntou-me, segurando-me o rosto com as suas duras mãos, com uma expressão de pura preocupação estampada naquele rosto de que tinha tantas saudades.


- Estou. Estou apenas cansada – admiti.


- Vamos para casa – disse.


Suspirei e concordei. Não sei porquê. Talvez pelo estado caótico em que a minha vida se encontrava, talvez pela quantidade de trabalho, ou mesmo talvez pela dor que sentia perante a sua ausência… De qualquer modo, aquelas foram as melhores palavras que ele alguma vez poderia ter proferido.


E quando acordei, na manhã seguinte, após uma boa noite de sono, vi que, se calhar, não estava assim tão longe da minha própria teoria do caos, que explicaria o dinâmico e complexo fenómeno em que a minha vida estava embrenhada. 

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publicado às 17:03


95 comentários

De Marta a 22.07.2011 às 17:21


Adorei, adorei!
Tens de continuar a escrever, isto é extremamente vicisnte.
Continua o teu bom trabalho.
Bj

De NattahL a 22.07.2011 às 17:33

Adorei como sempre! (:
Que bom que eles estão juntos outra vez! Três semanas é muito tempo separados :c
xoxo'

De Annie a 22.07.2011 às 17:51

O que dizer, quando a tua escrita melhora de dia para dia, de capítulo para capítulo.
Está perfeito.

De ♥ C. a 22.07.2011 às 18:12

Ainda nao sei :/ So te poderei dizer assim q experimentar uma a uma :c Mas em geral nenhuma me parece dificil ^^

De copodeleite a 22.07.2011 às 19:23

O que queres saber querida?
beijo

De ♥ C. a 22.07.2011 às 19:40

Vou adaptar esta: http://www.blogskins.com/apply.php?sid=364249&action=Preview (http://www.blogskins.com/apply.php?sid=364249&action=Preview)
Ja consegui agora 
e so mudar as cores e isso ^^
Preciso q me mandes aqueles textos todos necessarios para a blogskin pff"!

De ♥ C. a 22.07.2011 às 20:24

Queres a skin em cores neutras (os beges e os pretos e brancos) ou queres q acrescente um toque de cor?

De copodeleite a 22.07.2011 às 20:46

Verdade. Claro que tem contornos um pouco diferentes. Eu não coloquei a parte em que entra a ciumenta da namorada dele.

De copodeleite a 22.07.2011 às 20:49

terrivel. ela pos-se a fazer de vitima. mas nao a contesto. o momento foi um bocado coiso.
voltei a ser má da fita, mas nada que eu já nao esteja habituada.

De copodeleite a 22.07.2011 às 20:52

porque seria uma coisa boa?

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You told me I was like the dead sea. You never sink when you're with me.

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