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Capítulo 34 - Melhoras

por Jessie Bell, em 03.07.11





 


- Deus, dói-me tanto a cabeça! – Exclamara Parker, quando abriu os olhos naquela fria manhã de Janeiro, assim que o seu irritante despertador tocou.


Soltei uma sonora gargalhada e ele fitou-me zangado, cobrindo o seu cabelo loiro e desalinhado com a almofada.


- O que é que se passou?


- Tu tomaste o analgésico e ficaste completamente pedrado.


- Não me lembro de nada...


- Nem queiras! Eu devia era ter filmado isso.


- Foi muito mau?


- Pode dizer-se que sim.


- Pelo menos aprendi a não misturar medicação.


- E eu aprendi a nunca mais ficar contigo, quando estiveres doente.


- Não vou às aulas.


- Vais às aulas, Parker.


- Tem que ser?


Olhei para ele como um ar penoso e vi-lhe uma expressão fatigada, no entanto, antes de poder dizer alguma coisa, virou a sua cara, fitando-me, e puxou o meu rosto ao seu encontro e afundou os seus lábios nos meus, num beijo longo e apaixonado.


- Para que é que foi isso?


- Para te pedir desculpa.


- Estás mais que desculpado – proferi, roçando o meu nariz no dele. – A verdade é que foste verdadeiramente divertido.


- Ainda bem.


- Além de que descobri que o verdadeiro nome de Michael é Ebenese.


- Agora é que não vou mesmo às aulas. Ele vai dar-me um enxerto de porrada.


- És uma tristeza, Parker.


- Hoje é o dia do teu solo.


- Eu sei…


- Estás nervosa?


Desviei o meu olhar do dele e senti o meu estômago a colar-se às costas. Sim, estava nervosa e não lhe levou muito a perceber isso.


- És maravilhosa – garantiu-me, afagando-me o cabelo. – E eu vou estar lá, para te ver.


- Argh – arfei.


- Lillah, respira.


- Não vás!


- Porquê?


- Porque eu não quero. Vais-me deixar mais nervosa.


- Eu deixo-te nervosa?


- Deixas… muito. Por favor, Parker… Não preciso disto agora.


- Ok… mas nem penses que te salvas. Vais-me explicar isto, muito bem explicadinho.


Saímos em direcção a mais um dia.


Era o dia do meu solo.


Resolvi, para a performance, pegar numa música techno, desmontar a parte rítmica e explorá-la, apenas com as mãos e com os braços, era tudo o que me restava.


Quando entrei no auditório, não o vi e isso agradou-me. Fiz o solo e correu bastante bem. Os movimentos saiam fluidamente e eu estava-me a divertir com a situação. Quando acabei, vi uma expressão de satisfação estampada no gesto duro do meu professor de dança.


Passei e isso aliviou-me, apesar de não duvidar muito disso, de qualquer modo. Por outro lado, havia algo do qual duvidava muito mais: recuperaria alguma vez o uso total do meu pé? Esta dúvida assombrava-me a alma e perseguia-me para todo o lado.


A minha identidade, a minha carreira, o meu futuro… tudo isso, dependia daquilo.


Eu tinha tido cuidado com ele. Tinha cuidado bem dele. Esperava pelo melhor. Que sentido é que faria o pior acontecer?


As semanas foram passando, lentamente, mas passando. Tentava focar-me noutras coisas: representação, canto… Mas não servia de muito. Não quando tinha aquela vozinha na minha cabeça a inquirir-me constantemente sobre o meu fado incerto.


 


A data da consulta chegou. A consulta que determinaria o resto da minha vida, que determinaria o meu futuro.


Não tive coragem para pedir a Parker que viesse comigo, nem a Jessica, nem a Melanie, nem a ninguém. Talvez porque pensasse que tinha de fazer isto sozinha, ou então, simplesmente não queria ter ninguém a dar-me palmadinhas nos ombros, quando tudo o que queria fazer era desaparecer naquele preciso momento.


Quando me deparei com aquele enorme hospital branco, senti o meu estômago a revirar-se e as pernas dormentes, sem sinais de vida. Abanei-as um pouco, antes de sair do táxi, apenas para as ressuscitar. Quando consegui o efeito desejado, abandonei o automóvel amarelo, que já se encontrava parado, à frente da entrada principal, há bastante tempo.


Entrei na grande sala de espera e dirigi-me ao balcão central. Mandaram-me aguardar e assim o fiz, impacientemente.


Mexia no cabelo, virava-me e revirava-me na cadeira, verificava as horas a cada trinta segundos, olhava para o meu pé direito, que se encontrava ligado, e ficava desolada.


O medo profanava a minha alma, sem me dar hipóteses de rendição. Por um momento, desejei que Parker estivesse ali. Porém, a ideia de que ele sofreria tanto como eu, fazia-me esquecer o pensamento anterior. Já era mau o suficiente eu estar a sofrer…


Tinham-se passado quinze minutos quando ouvi o meu nome a ser pronunciado erradamente, novamente, pelos altos megafones da sala de espera. Levantei-me o mais rápido que consegui e logo me dirigi ao consultório indicado.


Assim que entrei, deparei-me com a mesma médica que me tinha visto da primeira vez e isso acalmou-me. Era bom ver uma cara familiar.


Ela cumprimentou-me com um sorriso amistoso e com um “olá” agradável. Convidou-me a sentar e em seguida fez-me questões rotineiras, às quais respondi com frases curtas e simples, sem grandes floreados. Estava desejosa para acabar com aquilo.


- Então, vamos lá ver esse pé? – Perguntou a simpática médica, quando acabou com as suas perguntas enfadonhas.


Assenti.


Sentei-me na maca e ela aproximou-se de mim, puxando de um banco giratório.


Lentamente, como criando suspense, foi desenrolando a ligadura que atava o meu pé. Aquele minuto foi o mais longo da minha vida. Estava nervosa. As minhas mãos suavam e nem eu sabia bem porque não estava a verter lágrimas.


Quando finalmente o meu pé direito ficou livre de qualquer tipo de ligadura, ganhei coragem para olhar para ele. Estava normal… Aparentava ser o meu pé: musculado, flexível, dorido e cheio de mazelas e cicatrizes.


A médica encorajou-me a mexe-lo, porém o medo era simplesmente demasiado. Voltei a mirá-lo: primeiro de um lado e depois do outro.


Finalmente aconteceu. Enrolei os dedos dos pés, fazendo-os estalar, como sempre e sem dar por isso, ele começou a mexer-se, como se nada tivesse acontecido.


Ele estava bem. O que basicamente significava que eu estava bem. “Eu estou bem”, garanti a mim própria num suspiro audível.


A verdade é que estava. A médica garantiu-me isso. Podia voltar a dançar, apesar de ter de levar as coisas lentamente, nos primeiros tempos… Não me importava.


Entrei naquele hospital com uma expressão de agonia pura e agora saía de lá com um sorriso aberto. Nada me deixava mais feliz do que um desfecho assim.


Sentia-me gloriosa. Portadora de uma identidade. De um futuro. De uma carreira. Portador de uma felicidade idealizada já há muito.


Dirigi-me para o apartamento o mais depressa que pude, com a intenção de encontrar Parker, de preferência sozinho. E assim foi:


Encontrei-o no seu quarto virado para uma folha de papel dobrada e redobrada, com uma expressão taciturna.


Saltei-lhe para as costas, num impulso e agarrei-lhe a cabeça, para que me fitasse.


- Olá! – Exclamei. – Olha! Está bom! – disse abanando o meu pé curado que rodeava a sua cintura.


Ele sorriu-me um sorriso aberto e, após me ter feito descer das suas costas, tomou-me o rosto e apoderou-se dos meus lábios, num acto furioso e necessitado.


- Estou muito feliz por ti, grá. Mas não se pode dizer que duvidava.


- Pois… pois…


- Atreves-te a duvidar de mim?


- O que é que tu achas? – Perguntei-lhe, mostrando-lhe a minha língua.


- Eu acho que te amo – falara, enquanto agarrava o meu pescoço.


- E eu acho que és um impostor Parker Halle. É isso que eu acho.


- Alguém te perguntou o que é que tu achavas?


- Não e a ti? – Perguntei, numa provocação.


- Por acaso perguntaste. Não me digas que o pezinho te causou amnésia.


- AH! Que piada. Estamos tão engraçados hoje…


Ele sorriu-me um sorrir maroto fitou-me de cima a baixo, como apreciando uma estátua.


- Paras de olhar assim para mim. Eu não sou nenhuma escultura do Bernini.


- Podias ser… Pelo menos servias de muito boa inspiração.


- Tu hoje estás tão idiota…


- E tu estás tão bonita, com o uso completo dos teus pés.


- O que me trás de voltas à teoria do “idiota”. Voltaste a misturar medicação?


- Não mãezinha… Já aprendi a minha lição.


- Acho bem! O que é isto? – Perguntei, ao olhar para o papel que Parker estava a ler quando entrei.


- Correspondência…


- De…?


- De ninguém interessante – disse agarrando a minha cintura, fazendo-me vacilar.


- Posso ver?


- Não.


- Pensava que não era interessante…


- Pensava que não eras bisbilhoteira – afirmou, roçando o seu nariz no meu pescoço, causando-me uma sensação de calor.


- Estou curiosa. E pára de me tentar distrair! – Ordenei, enquanto afastava a sua cabeça do meu ombro, onde havia pousado.


- Podes confiar em mim? Não interessa!


- Como queiras…

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publicado às 00:44


24 comentários

De copodeleite a 03.07.2011 às 10:04

eu já mudei por pessoas. já mudei pela sociedade que me rodeia. não sei se para melhor mas mudei.
*adoro a musica do post. já ando a ler a tua historia*
beijo

De copodeleite a 03.07.2011 às 18:32

eu mudei por pessoas, admito.
só os dois primeiros...
beijo

De copodeleite a 03.07.2011 às 18:39

estou. ainda não tive foi tempo para ler o resto...

De copodeleite a 03.07.2011 às 18:45

A minha opinião é apenas mais uma de todos os teus leitores. Quando conseguir ler um numero maior de capítulos faço um comentário (gigante) onde comento um pouco de tudo xD

De copodeleite a 03.07.2011 às 18:53

Não era essa a minha intenção. apenas darei a minha opinião quando conseguir ter dados suficientes, entendes? eu sou daquelas pessoas que não fala das coisas sem ter analisado bem xD

De copodeleite a 03.07.2011 às 18:59

Não és nada fútil. Todos nos importamos com as opiniões dos outros. É normal.
Eu tenho andado bem. Tenho ido à piscina e saído um pouquito à noite. Nada de especial. e tu?
beijo

De copodeleite a 03.07.2011 às 19:09

também só chegaste à uns dias. sai com outros amigos. ou então mergulha nos livros. eu tenho vários livros que quero ler este verão alguns até já se encontram sobre a minha mesinha de cabeceira.
beijo

De copodeleite a 03.07.2011 às 19:22

God! tens muito por onde te divertir. só essa saga de onze livros já te vai ocupar imenso tempo xD
que mau! eu também me vou ausentar daqui mas vou tentar manter-me actualizada.
eu nem falo de series que eu tenho imensas gravadas à espera que eu me sente no sofá e me digne a vê-las.

De copodeleite a 03.07.2011 às 19:32

Tu pintas ? :o tu és uma caixinha de surpresas.
Eu sou igual. fico mesmo a bater mal. um mau humor do caraças. na altura dos exames aconteceu-me isso e a minha mãe nem se podia aproximar muito de mim e da minha mesa da sala que começava a discutir com ela...tu vias arranjar um jeito de sair.
-o tempo aqui está uma VERGONHA!

De copodeleite a 03.07.2011 às 19:44

de certeza que pintas razoavelmente se não, não o fazias não é?
-acho que até já choveu aqui. eu nem sei o que dizer. sempre que penso nisso fico engasgada com a quantidade de palavrões e pragas que me apetece dizer.
imagino. eu discuto (muito) com o meu pai. é hora sim, hora não, hora sim,...

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